Em 2018, o Brasil e o mundo assistiram, estarrecidos, ao incêndio que destruiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Milhares de peças históricas foram consumidas pelas chamas, entre elas, acreditava-se, um importante fóssil de camarão pré-histórico - Beurlenia araripensis. Mas a ciência adora um bom enredo de reviravolta.
Entre 2018 e 2022, um meticuloso trabalho de recuperação da coleção dos escombros foi realizado: amostras foram cuidadosamente retiradas das ruinas com a preocupação de anotar sua posição. Somente por isso está sendo possível recuperar as informações científicas de muitos fósseis resgatados”, disse o Dr. Sandro M. Scheffler, responsável pelo resgate da coleção de paleoinvertebrados e um dos autores do trabalho.
Seis anos depois do incêndio, em 2024, durante este cuidadoso trabalho de recuperação da informação dos fósseis retirados dos escombros, pesquisadores fizeram uma descoberta emocionante: o holótipo original, a “peça-chave” que deu nome à espécie de camarão, estava ali. Queimado, mas intacto o suficiente para voltar à vida científica.
Fóssil repatriado ajuda a desvendar a espécie
O estudo recém-publicado é também o primeiro a utilizar material fóssil repatriado da França, parte de uma carga ilegal de quase 1.000 fósseis brasileiros que foi apreendida em um porto francês e, graças a uma ação internacional conjunta da Universidade Regional do Cariri (URCA), Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, Geopark Araripe, Governo do Estado do Ceará, Ministério Público e Ministério das Relações Exteriores, voltou ao Brasil em 2023.
Com base nesse material - extremamente bem preservado - e no holótipo resgatado das cinzas, os cientistas revisaram completamente a descrição da espécie, resolvendo dúvidas que perduravam desde os anos 1990.
Beurlenia araripensis, encontrado na Formação Crato da Bacia do Araripe, viveu há cerca de 113 milhões de anos num ambiente lacustre tropical. Agora, com as novas análises, passa a ocupar um lugar mais definido na complexa árvore da vida dos camarões
“É como se esse fóssil tivesse renascido. Uma espécie que foi descrita uma vez, quase desapareceu na tragédia, e agora retorna com uma nova identidade”, diz Daniel Lima, paleontólogo e um dos autores do estudo.
A pesquisa, publicada na revista internacional PalZ, é fruto da colaboração entre cientistas do Brasil (Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens da Universidade Regional do Cariri e Museu Nacional da Universidade Federal de Rio de Janeiro) e do Reino Unido (Universidade de Oxford), e fortalece o papel da paleontologia brasileira na proteção do seu patrimônio e na geração de conhecimento científico de ponta. Mais que ciência, essa história é símbolo de resistência.
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